Cozinhar é uma terapia

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Cozinhar é uma terapia

Prato de Cida Gomes

Por Liège Camargos

Segundo a poetisa brasileira, Cora Coralina “haverá sempre esperança e paz na Terra enquanto houver um semeador semeando trigo e um padeiro amassando e cozendo o pão”.
Esta singela frase da renomada escritora goiana é repleta de significados e reflete bem o que pensam muitas pessoas que transformam a culinária numa arte-terapia. Seja numa escola, em casa com a família, ou no local de trabalho, onde o ato de fazer pão se transforma numa terapia em grupo, a gastronomia avançou no tempo e hoje agrega muito mais que um livro de receitas e boa vontade. Envolve saúde, qualidade de vida e bem-estar.

Pão com amor
A frase de Cora Coralina ilustra bem a missão que a herborista mineira, Magdala Guedes tem com a alquimia do pão. Proprietária do Sítio Sertãozinho, localizado na Serra Moeda, próximo a Ouro Preto, 55 quilômetros de distância de Belo Horizonte (MG), Magui, como é conhecida, é adepta da culinária orgânica e transformou o hábito de fazer um pão num ritual quase sagrado.

“Se colocamos uma intenção nesse gesto e prestamos atenção em como os ingredientes se misturam, podemos entender a alquimia da vida, as atitudes que nos impedem de ser feliz”, explica Magui. Ela chega a reunir grupos de até 50 pessoas em seu sítio para fazer pão, o que considera uma verdadeira terapia de bem-estar.

Segundo Magui, se a massa crua fica muito mole, isso significa que a pessoa está sem foco na vida. Se o pão não cresce, quer dizer que é preciso se desapegar do passado e viver o presente. Se tudo fica perfeito, é sinal de conexão com a realidade. “Saborear o pão nos dá coragem e nutre a alma. E esse milagre acontece na cozinha”, celebra.

Chef por prazer
Cozinhar é uma terapia também para a professora de culinária Cida Gomes, de Belo Horizonte (MG), que trocou a profissão de bancária pela gastronomia. Há seis anos, ela mantém na capital mineira um atelier culinário que leva seu nome e ensina os truques e receitas de pratos do trivial básico à cozinha contemporânea e internacional.

Cida Gomes tem formação como cozinheira profissional pelo SENAC-MG, mas a paixão pela culinária vem da herança familiar. “Sempre acompanhei minha mãe na criação das receitas e ficava fascinada na cozinha, com os temperos e a mistura dos ingredientes. No fundo, sempre soube que um dia atuaria na área”, lembra Cida.

Hoje, a gastronomia é sua profissão, mas, para Cida, continua sedo um grande prazer. Ela conta que a parte administrativa do negócio é o que mais a estressa, mas que, quando entra na cozinha do atelier para dar aula, se esquece de tudo. “Meu trabalho é muito terapêutico. Entro em contato com as pessoas, extraio o que elas têm de melhor, compartilho conhecimentos, aprendo lições de vida, é uma experiência muito rica de sabores e significados”, destaca.

Ela lembra ainda que a terapia da culinária não é importante somente para ela, pessoalmente. “Tenho vários alunos que procuram o atelier indicados por médicos, como clínicos e cardiologistas, que indicaram as aulas de culinária como terapia, para exercitar o corpo e a mente”, completa.

Infância na cozinha
Ele tem apenas 22 anos e mais de 800 receitas guardadas na cabeça, que executa para a família e os amigos sem consultar nenhum livro ou site de gastronomia. Considerado um prodígio na cozinha, criou sua primeira receita aos sete anos de idade, quando surpreendeu a mãe com um prato de sopa de legumes feito na panela de pressão, uma receita ensinada pela avó paterna, uma legítima nona italiana.

O jovem Juliano Allazia, também de Belo Horizonte (MG), trabalha atualmente num banco, é apaixonado por culinária e está se preparando para cursar faculdade de Gastronomia. Seu sonho é ser um renomado chef de cozinha. Seus ídolos? O francês naturalizado brasileiro, Claude Troigrois, e o espanhol, Ferran Adrià, duas lendas vivas da culinária internacional.

“A culinária está no sangue. Sempre assisti aos programas na TV e comprei revistas com receitas. Passo horas na cozinha fazendo experimentos e inventando novos pratos. Nunca fiz curso na área, tudo que aprendi foi com minha mãe, minha nona e em pesquisas na Internet. Outras receitas eu mesmo criei. Todas foram aprovadas com nota máxima pelos amigos”, diverte-se Juliano.

Além de preparar os pratos, ele ainda decora a mesa e faz escultura com frutas. Pedimos que nos indicasse o cardápio de uma refeição completa e nos surpreendeu com uma receita exclusiva assinada por ele. Como entrada, casquinha de camarão catupiry. No prato principal, Piatto Veleto, filet de linguado grelhado no Bacardi, com manteiga de ervas do chef e molho de camarão. O acompanhamento é arroz com brócolis e alcaparras e uma salada de rúcula e acelga com lascas de parmesão, molho de azeite, vinagre e balsâmico e croutons. De sobremesa, Terrina, doce francês composto de uma camada de mousse, outra de gelatina e dentro ela, pedaços de morango

Para destaque no meio do texto:
Em recente entrevista à Revista Época, a inglesa Nigella Lawson, apresentadora do programa de culinária Nigella Bites, do canal GNT, foi questionada se culinária era uma terapia para ela, que respondeu: “às vezes, sim, especialmente se você está cozinhando apenas para duas pessoas ou assando alguma coisa. Quando você está recebendo muita gente, cozinhar pode ser bem estressante”.