Para os apreciadores da boa cachaça mineira

0
Para os apreciadores da boa cachaça mineira

Produção da cachaça

Por Bárbara Fonseca

Direto da fonte

Não é preciso ser bom entendedor de cachaças para conhecer a vocação de uma pequena cidade do Norte de Minas para o assunto. Salinas, a 631 quilômetros da capital, produz, nada mais, nada menos, que cinco milhões de litros da branquinha por ano, abrigando 47 marcas registradas. A emblemática Havana e condições como o clima e solo ajudam a entender a boa fama da bebida produzida no município que hoje vê na cachaça um atrativo e tanto para aquecer o turismo. Literalmente.

Ao chegar na cidade, cartazes, placas e pinturas nos muros anunciam que se está, realmente, na capital mundial da cachaça, como se popularizou o lugar. Até mesmo a rodoviária municipal homenageia a bebida, ou melhor, seu mais ilustre produtor. Anísio Santiago, criador da cachaça Havana, é quem dá nome ao terminal, além de ser personagem das mais diversas histórias – verídicas ou não – que povoam o imaginário dos moradores.

Em meio a tantas lendas envolvendo o velho Anísio e sua cachaça, que carrega o título de patrimônio imaterial de Salinas, é impossível que a curiosidade não seja despertada. Com um pouco de conversa com um dos herdeiros, é possível entrar na Fazenda Havana e ver de perto a produção da melhor cachaça do país. E das mais caras também. Uma garrafa de Havana, em Salinas, não sai a menos de R$ 300. Já a Anísio Santiago, produzida após a perda da patente do nome Havana, é encontrada por R$ 150.

Se, para muitos, ir à Fazenda Havana é como chegar a um mundo da fantasia, o lugar pode contrariar as expectativas. Na propriedade de 1938, o processo artesanal da pinga é mantido, mas não há nada de tão incomum e extraordinário aos olhos. Um pequeno alambique de cobre faz a produção que chega, no máximo, a 15 mil litros por safra de cana. Segundo Oswaldo Santiago, filho de Anísio, algumas marcas chegam a produzir esta quantidade em um mês. Perguntado sobre o segredo da Havana, o mineiro dá de ombros e ri. “Meu pai levou com ele”, brinca.

Ocupando o ranking das melhores do país, a cachaça Canarinha também tem produção limitada, não chegando a mais de 150 litros por dia. “Preferimos deixar faltar que sobrar”, explica Eílton Santiago, dono da marca. O produtor é presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaças de Salinas (Apacs). Segundo ele, um dos problemas enfrentados pelo grupo é a falsificação. Não é raro encontrar, em grandes cidades como a vizinha Montes Claros, cachaças que indiquem, no rótulo, que a origem do produto é Salinas, quando, na verdade, não são.

A produção de cachaças emprega hoje, em Salinas, cerca de duas mil pessoas. Mas esse número pode crescer devido ao aperfeiçoamento técnico que o setor vem passando, sem perder, é claro, as características artesanais. De olho nesse mercado, foi criado, em 2005, o curso superior de Tecnologia em Produção de Cachaças, oferecido no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus Salinas.

Com duração de três anos e disciplinas como gestão ambiental e destilação, o curso quer preencher a lacuna que existe entre os trabalhadores dos alambiques e pesquisadores na área. No curso os alunos também entendem melhor as características físicas da cidade que, somadas ao processo artesanal, dão o diferencial da cachaça de Salinas. “A pouca oscilação térmica é um dos fatores que favorecem o desenvolvimento do fermento”, explica Oswaldo Guimarães Filho, um dos professores.

Se você ficou curioso para conhecer a capital da branquinha, não perca o Festival Mundial da Cachaça, realizado na segunda quinzena de julho na cidade. Na edição do ano que vem, Salinas já abrigará o seu Museu da Cachaça, projeto cultural orçado em R$ 7 milhões que contou com recursos da Prefeitura Municipal e Governo de Minas.